Que instrumento escolher para o meu filho?
Esta é a pergunta mais frequente que chega à Secretaria em Setembro e Outubro. E é também a pergunta que costuma trazer o maior peso emocional. Os pais querem acertar. Querem que o filho experimente e goste. Não querem investir num instrumento errado. Não querem descobrir daqui a três anos que "afinal era outro".
A boa notícia é que, na larga maioria dos casos, não há decisão errada. A menos boa é que, em Setembro, com a matrícula em cima, muitas famílias sentem que sim, e escolhem por razões que valem pouco (o instrumento que os pais estudaram em criança, o que "há mais oferta" na Academia, o que o primo escolheu).
Este artigo é para famílias em fase de decisão. Não vai dizer qual o instrumento certo para a vossa filha ou o vosso filho. Vai dizer, com honestidade, quais as perguntas certas para chegar lá.
A pergunta errada e a pergunta certa
Errada: "Qual é o melhor instrumento para começar?"
Não há. O piano é frequentemente sugerido porque a estrutura visual do teclado ajuda a compreender teoria musical. É um argumento válido, mas não decisivo. Uma criança que ganha o gosto na guitarra, na bateria, no canto ou no baixo aprende exactamente a mesma teoria, exactamente com a mesma facilidade, se estiver bem acompanhada.
Certa: "Qual é o instrumento que a minha filha ou o meu filho vai querer voltar a pegar amanhã?"
É a única pergunta que interessa. Aprendizagem musical vive de frequência de contacto, e frequência de contacto vive de vontade. Um instrumento que a criança ache belo, ache sedutor, ache dela, é um instrumento que vai pegar todos os dias sem drama. Um instrumento imposto, mesmo que "melhor no papel", será estudado por dever até parar de ser estudado.
Idade e instrumento: o que costuma funcionar
Não é regra absoluta. É referência.
5 a 6 anos. Iniciação musical geral, canto, flauta de bisel, pequenas percussões, exploração de teclado. Não é o momento de escolher instrumento definitivo. É o momento de expor a criança à linguagem musical, ao movimento, ao ritmo, à voz. Se ela pedir insistentemente um instrumento específico, considerar. Se não pedir, não impor.
6 a 7 anos. Começam a poder-se iniciar piano, guitarra clássica pequena e canto adaptado. A escolha faz-se por atracção da criança, e a resposta do corpo dela na aula experimental é o melhor sinal.
8 a 9 anos. Abrem-se mais possibilidades. Guitarra normal, ukulele, saxofone (soprano), flauta transversal, bateria em contexto adaptado. Este é o intervalo em que a maioria das crianças escolhe verdadeiramente o "seu" instrumento, se lhes for dado espaço.
10 anos e mais. Todos os instrumentos disponíveis. Idade em que muitos adolescentes descobrem baixo eléctrico, guitarra eléctrica, produção musical, canto contemporâneo. Não subestimar estes formatos. Um adolescente que se apaixona pelo baixo aos 12 tem uma vida musical inteira à frente.
Adultos. Qualquer instrumento, qualquer idade. Não há prazo. Nem se aprende pior aos 40 do que aos 12, apenas se aprende com outros mecanismos. Adultos aprendem com estrutura consciente. Crianças aprendem por imitação e jogo. Ambos aprendem.
O papel da personalidade
Uma criança extrovertida, energética, que gosta de estar em grupo, vai provavelmente florescer em instrumentos de conjunto — sopro, cordas em orquestra, canto em coro, bateria em banda. Uma criança introvertida, contemplativa, que gosta do próprio tempo, tende a dar-se bem com piano, violão, violoncelo, instrumentos que permitem uma relação mais silenciosa.
Isto não é regra. É pista. Há pianistas extrovertidos e há bateristas contemplativos. Mas se conhecerem bem a vossa filha ou filho, e a atracção estiver dividida entre dois instrumentos, esta é uma das balanças a ponderar.
Um sinal que funciona bem: perguntem à criança em que instrumento ela consegue imaginar-se a tocar sozinha durante meia hora em casa, com prazer. Se responder rapidamente, essa é a resposta. Se hesitar, é sinal de que ainda não teve contacto suficiente para decidir.
A aula experimental existe por uma razão
Em quase todas as academias sérias, há aula experimental. Aproveitem-nas. Todas.
Muitas famílias fazem uma só aula experimental (a do instrumento em que já tinham decidido). Melhor é fazer duas ou três, em instrumentos diferentes, e comparar a reacção da criança em cada uma. Como reagiu ao som? Estava confortável fisicamente? Riu? Perguntou se podia continuar? Aborreceu-se?
Isto vale mais do que qualquer argumento adulto sobre "qual instrumento faz mais sentido". A criança sabe o que quer. Só precisa de contacto para descobrir.
E se mudar de instrumento?
Vai acontecer em cerca de 20 a 30 por cento dos alunos ao longo do percurso. Não é falha. É natural.
Uma criança que começa em piano aos seis, aos nove pede guitarra, aos 12 descobre bateria — não perdeu os anos de piano. Ganhou capacidade de leitura, ganhou ouvido, ganhou disciplina de estudo, ganhou hábito de palco. Tudo isto transfere-se para o próximo instrumento.
O erro é forçar a permanência no instrumento inicial "porque já se investiu". Um instrumento estudado por obrigação vale menos do que um instrumento novo estudado por vontade. Se a mudança for pedida de forma consistente, e não em pico de frustração pontual, vale a pena escutar.
Regra útil: nunca decidir a mudança numa semana difícil. Deixar passar um mês. Se o pedido persistir, é genuíno. Se se dissipar, era frustração passageira.
O custo do instrumento
Duas variáveis a ponderar.
Comprar ou alugar. Para instrumentos caros (piano acústico, guitarra de qualidade, baixo, bateria completa), começar por aluguer é quase sempre a decisão certa. Permite descobrir se o interesse se sustenta antes de investir. Muitas casas de música em Lisboa oferecem programas de aluguer com opção de compra ao fim de 12 ou 24 meses, com desconto parcial das rendas pagas.
O nível do instrumento. Não vale a pena comprar o melhor. Também não vale a pena comprar o pior. O pior instrumento produz som mau, sensação má, e desmotiva a criança. Um instrumento de gama média-baixa, bem afinado e em bom estado, é o ponto certo para começar. A academia ou o professor podem orientar.
Uma nota final sobre pianos digitais: para os primeiros três anos de estudo, um piano digital de qualidade média (com 88 teclas pesadas e sensibilidade) é perfeitamente aceitável em casa. Passar para acústico faz sentido a partir do quarto ou quinto ano, quando o toque começa a exigir mais nuance.
O papel dos pais na escolha
Ouvir mais do que sugerir. E resistir à tentação de projectar.
Muitos pais escolhem, sem se dar conta, o instrumento que eles próprios estudaram na infância e não continuaram. Ou o que sempre quiseram estudar e não puderam. Isto é humano e frequente. Mas o filho não é o vosso "eu jovem". É outra pessoa. Deixem que ele descubra o instrumento dele, não o vosso.
O que se pode fazer, sim, com serenidade:
- Levar a concertos de instrumentos diferentes, ver a reacção.
- Ouvir em casa gravações de piano, cordas, sopros, bateria, canto, e reparar onde a criança pára para ouvir.
- Fazer aulas experimentais em três instrumentos, sem pressão.
- Perguntar, no fim do processo, com que instrumento se imagina daqui a um ano.
O resto, e este é o ponto mais importante, é confiar. A escolha do instrumento não é uma decisão irreversível. É o primeiro passo de um percurso que se ajusta ao longo do tempo.
O que fica desta conversa
Escolher instrumento não é encontrar a solução definitiva. É começar em bom terreno, com espaço para descobrir. A criança sabe mais do que parece. Os pais precisam de menos peso do que sentem. E o instrumento certo é, em regra, aquele para o qual a criança vai naturalmente amanhã, sem ninguém pedir.
Se estiverem indecisos, marquem aulas experimentais em dois ou três instrumentos. Deixem a criança comparar. E confiem no que ela vos disser depois. Costuma acertar.
Gabriela Fernandes é pianista, formadora e co-fundadora d'Os Músicos. Trabalha educação musical na infância e adolescência, e forma pais e músicos noutras academias. Mais em gabrielafernandes.pt.
Gabriela Fernandes
Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.