Aprendizagem musical

Já aprendi alguma coisa? Depende da pergunta

Em janeiro acontece uma coisa curiosa nas conversas de família. Depois do Natal, depois do primeiro recital, depois de quatro meses de aulas, aparece a pergunta.

Gabriela Fernandes · · 5 min de leitura

"Já sabes tocar aquela música?"

"Já aprendeste alguma coisa?"

"Então, mostra lá o que já consegues fazer."

Fica a pessoa que foi perguntada a tentar decidir o que responder. Sabe que, em termos técnicos, fez muita coisa. Sabe o nome das notas no instrumento. Sabe ler alguns compassos. Sabe tocar duas ou três peças pequenas. Mas também sabe que, se se sentar agora para tocar uma música inteira que o pai reconheça, não consegue.

Diz "ainda não". A conversa termina com uma meia desilusão de ambos os lados.

O problema não é a pessoa. O problema é a pergunta.

O que é "saber tocar", afinal

Saber tocar uma música é uma de várias coisas que acontecem quando se aprende um instrumento. Não é a primeira. Não é a mais importante. É só a mais visível. É aquela que, de fora, a família consegue ver e aplaudir.

Antes de "saber tocar uma música", acontece muito. Acontece aprender a reconhecer notas no instrumento. Acontece conseguir ler uma partitura simples e saber qual é a próxima nota antes de a mão lá chegar. Acontece desenvolver memória para padrões rítmicos. Acontece afinar o ouvido para distinguir sons parecidos. Acontece aprender a aguentar a atenção durante quinze minutos seguidos num exercício que não é propriamente divertido.

Nenhuma destas coisas se transforma, por si só, numa música que o pai reconheça ao jantar. Mas todas elas são aprendizagem. Todas elas são progresso. E, em quase todos os casos, estão lá.

A pergunta certa, portanto, não é "já sabes tocar uma música?". É "já aconteceu alguma coisa dentro de ti que não acontecia em setembro?".

Esta pergunta, feita com honestidade, costuma ter uma resposta positiva.

Fluência não é o mesmo que saber as palavras

Vale a pena comparar com uma língua que não falamos.

Imagina que começas a aprender italiano em setembro. Em janeiro, se alguém te perguntar "já falas italiano?", a resposta certa é "ainda não". Mas essa resposta esconde a verdade. A verdade é que já reconheces palavras no cardápio quando vais ao restaurante. Já apanhas o sentido geral de uma frase que ouves no comboio. Já consegues cumprimentar e perguntar onde fica a casa de banho. Em janeiro ainda não falas italiano fluente. Mas a aprendizagem está instalada. Está a aterrar.

Com a música é igual. Quatro meses não dão fluência. Dão base. Dão vocabulário. Dão ouvido. Dão hábito. A fluência vem depois, com o tempo que a aprendizagem precisa para passar da cabeça para as mãos sem o cérebro ter de pensar.

Quando se exige fluência musical ao fim de quatro meses, está a exigir-se o impossível. É como pedir a uma criança que fala italiano há três semanas para improvisar um discurso sobre política europeia.

Três sinais reais de progresso para procurar em casa

Em vez de perguntar "já aprendeste alguma coisa?", vale a pena procurar sinais menos óbvios. Estão quase sempre lá.

Primeiro: identificar música no mundo. O miúdo ouve um jingle de publicidade na televisão e diz "aquilo é um ré". Ou ouve o toque de uma campainha e diz "aquela escala é diferente". Ou tenta cantar a melodia de uma música da rádio enquanto está no banco de trás do carro. São micro-momentos que, antes de setembro, não existiam. Agora existem. É aprendizagem.

Segundo: acompanhar com o corpo. A pessoa bate o pé no ritmo certo numa música que nunca ouviu. Ou canta uma linha de baixo que mal se ouve numa música do rádio. Ou dança com uma coordenação diferente da que tinha. O corpo está a aprender música em paralelo com a cabeça, e isso é um dos melhores sinais possíveis de que a aprendizagem está a instalar-se.

Terceiro: pegar no instrumento sem ninguém pedir. Mesmo que seja só por três minutos. Mesmo que seja para tocar sempre a mesma coisa. Mesmo que pareça pouco. A disposição para ir ao instrumento quando ninguém pediu é o indicador mais confiável de que a música encontrou um lugar na vida da pessoa. É o que vai aguentar os próximos anos de prática.

Nenhum destes sinais vai dar uma apresentação musical interessante ao jantar. Mas qualquer um deles vale mais do que uma peça aprendida sem convicção para mostrar quando a família pede.

Para o aluno adulto

Se és adulto e começaste a aprender música em setembro, provavelmente estás a ler isto com um nó na barriga. Porque, se achavas no mês passado que ias desistir, agora acrescentas que também achas que não aprendeste nada.

Falamos directamente: aprendeste muito. O que estás a sentir não é falta de progresso. É falta de validação externa. Toda a gente à tua volta pergunta "o que já tocas?" e tu não tens resposta boa para dar. Isso magoa, mas não é diagnóstico.

Olha para a tua vida de setembro para cá e procura sinais pequenos. Dedos que já encontram as teclas sem olhar. Mãos que já se posicionam no sítio certo quando pegas no instrumento. Partituras simples que já lês sem tropeçar nos nomes das notas. Capacidade de tocar uma frase cinco vezes seguidas sem perder a paciência.

Isto é progresso adulto. Não é espectacular. Mas é o que vai dar sustentação a toda a aprendizagem que ainda está à tua frente. Em janeiro, a música ainda não está no corpo. Em junho, estará.

O ano que agora começa

Janeiro é um bom mês para olhar para a frente, não só para trás.

Em março teremos Recital de Primavera, com apresentações de todos os alunos. É o momento em que os pequenos passos de novembro-dezembro-janeiro aparecem acumulados em peças inteiras. É quase sempre a surpresa boa do ano.

Em maio, teremos nova Gala. Dia 30 de maio de 2027. Ainda estamos a desenhar o tema, mas a escala vai ser semelhante à do ano passado: toda a academia em palco, com repertório partilhado.

Entretanto, continuam as aulas e os pequenos marcos semanais. Para alguns alunos, janeiro é o mês em que começam a trabalhar peças mais exigentes. Para outros, é o mês em que mudam de livro. Para outros, é o mês em que começam a participar em classes de conjunto. Cada um no seu ritmo, cada um no seu caminho.

Quando chegares a junho e olhares para trás, vais perceber que entre setembro e janeiro aconteceu mais do que te parecia agora.

A pergunta "já aprendi alguma coisa?" é a pergunta errada. A pergunta certa é esta: o que é que mudou em mim desde setembro, mesmo nas coisas pequenas que ninguém vê?.

Se é a essa pergunta que respondes, raramente a resposta é "nada".

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Gabriela Fernandes
Sobre a autora

Gabriela Fernandes

Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.

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