Palco e performance

A primeira vez que sobes a um palco

Em dezembro, dezenas de alunos d'Os Músicos vão subir a um palco pela primeira vez. Alguns têm cinco anos. Outros têm cinquenta. Vão tocar peças curtas, muitas vezes de dois minutos, umas vezes a solo, outras em duo, outras no meio de um coro de vinte vozes.

Gabriela Fernandes · · 5 min de leitura

Para alguns, vai ser uma coisa que esqueceram no dia seguinte. Para outros, vai ser uma coisa que lembram para sempre.

Não é possível saber à partida qual dos dois grupos cabe a cada pessoa.

Antes de o pano abrir

Nos quinze minutos antes de um recital, os bastidores de uma academia de música são um sítio esquisito. Há adultos a verificar afinadores a cada três minutos. Há crianças de nove anos sentadas no chão a tocar silenciosamente nas pernas, a repetir os dedilhados. Há pais lá fora que não sabem bem o que fazer com as mãos. Há um professor que passa de aluno em aluno a dizer sempre a mesma coisa com palavras diferentes: está bem, está bem, está bem.

E há, quase sempre, um aluno que diz, mesmo antes de entrar: acho que não consigo.

Essa frase é a mais interessante de todas. Porque, dez minutos depois, essa mesma pessoa está do outro lado do palco, a bater palmas aos outros, com o sorriso meio idiota de quem acabou de fazer uma coisa que não achava que era capaz de fazer.

É por essa transição que mandamos toda a gente ao palco.

O que o palco faz à aprendizagem

Há uma coisa que acontece dentro de uma sala de aulas e outra coisa que acontece em cima de um palco. Não é a mesma coisa. Pode-se tocar uma peça muito bem na aula, semana após semana, e isso é um tipo de aprendizagem. Mas quem só toca em aula fica a saber meia da história.

O palco pede uma camada diferente. Pede concentração sob pressão. Pede memória que não falha quando o cérebro está a correr mais depressa do que o normal. Pede recuperação quando um dedo cai onde não devia cair. Pede estar presente no momento, não a pensar no que acabou de acontecer nem no que ainda vai acontecer.

Nenhuma destas coisas se aprende em casa a estudar sozinho. Nenhuma destas coisas se aprende nem numa aula. Aprende-se em cima do palco, e só em cima do palco.

É por isso que uma academia que não leva os alunos a palco está, na prática, a ensinar metade do que uma pessoa precisa para ser músico. Pode ensinar muito bem a parte técnica. Mas a parte vital, a que faz a diferença entre "tocar o instrumento" e "ser músico", fica por fazer.

Pela primeira vez: três notas para pais

Primeira: não digas "não fiques nervoso". O nervosismo não desaparece a mando. O que faz é mudar de forma. Se é dito que é mau, torna-se mau. Se é tratado como uma espécie de combustível, torna-se combustível. A frase que ajuda mais é esta: é normal estar nervoso, isso quer dizer que te importas.

Segunda: a avaliação não é sobre a execução. Nenhuma criança de nove anos sabe se tocou "bem" aos ouvidos dos pais. Sabe se foi aplaudida. Sabe se depois foste ter com ela em cheio. Sabe se, à saída, lhe disseste "estou tão orgulhoso de ti". Sabe se celebraram em família. O que a criança retém não é a execução. É a experiência à volta da execução. A memória que vai ficar não é musical. É afectiva.

Terceira: filma, mas não tires os olhos. Vais querer o vídeo. Toda a gente quer. Mas filma com o telemóvel pousado em cima da almofada, não a segurar com a mão. A criança procura a cara dos pais no palco, não o telemóvel. Encontrar os teus olhos no público, mesmo que por um segundo, é a diferença entre tocar sozinho e tocar acompanhado.

Pela primeira vez: três notas para alunos adultos

Se és adulto e vais subir a palco pela primeira vez na vida este dezembro, há coisas que convém saberes.

O primeiro palco é sempre pior na cabeça do que na realidade. Vais estar nervoso. Mais do que achas. Vais chegar ao palco a tremer, vais sentar-te, vais achar que vais morrer, vais começar a tocar e, ao fim de trinta segundos, vai passar. Não há maneira de evitar os primeiros trinta segundos. Toda a gente que já tocou em palco, de qualquer idade, passou por eles. Faz parte. Não é defeito.

Vai correr pior do que em casa. É suposto correr pior. Vai haver uma passagem onde a mão vai trair-te. Vai haver uma nota a mais ou a menos. Vai haver um pedal que escorrega. Nada disto é falha. É palco. O público não vai notar. E se notar, não se importa.

O que faz a diferença não é a execução, é não parar. Se enganares, continua. Se te esqueceres, improvisa. Se tudo se desmontar, levanta-te, respira, começa outra vez. Toda a gente que toca passa por isto. A diferença entre quem continua e quem desiste a meio não está na técnica. Está no treino de continuar.

Depois de o pano fechar

Nos minutos a seguir a um recital, há uma coisa quase universal. As pessoas que acabaram de tocar não se lembram muito bem do que aconteceu. Lembram-se de uma sensação, não de uma sequência. Lembram-se das caras que viram no público, não das notas que tocaram.

Isto parece estranho, mas é saudável. Significa que estiveram presentes. Significa que o corpo e a cabeça estavam no sítio certo. Lembrar-se nitidamente de cada nota tocada seria sinal de estar a observar-se de fora, e isso é o oposto do que o palco pede.

Se és família de alguém que vai subir a um palco pela primeira vez em dezembro, há uma coisa simples que te pedimos: no fim, abraça. Diz "parabéns" e não digas mais nada. Deixa que seja a pessoa a contar-te como foi, quando lhe apetecer, se lhe apetecer, com as palavras que ela quiser. Não analises. Não corrijas. Não compares com o ano passado.

E guarda este dia. Daqui a dez anos, pode ser o dia em que, se perguntares, a pessoa te diz: foi aí que percebi que a música era mesmo para mim.

Em onze anos de academia, já ouvimos esta frase mais vezes do que conseguimos contar.

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Gabriela Fernandes
Sobre a autora

Gabriela Fernandes

Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.

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