A primeira vez que sobes a um palco
Em dezembro, dezenas de alunos d'Os Músicos vão subir a um palco pela primeira vez. Alguns têm cinco anos. Outros têm cinquenta. Vão tocar peças curtas, muitas vezes de dois minutos, umas vezes a solo, outras em duo, outras no meio de um coro de vinte vozes.
Para alguns, vai ser uma coisa que esqueceram no dia seguinte. Para outros, vai ser uma coisa que lembram para sempre.
Não é possível saber à partida qual dos dois grupos cabe a cada pessoa.
Antes de o pano abrir
Nos quinze minutos antes de um recital, os bastidores de uma academia de música são um sítio esquisito. Há adultos a verificar afinadores a cada três minutos. Há crianças de nove anos sentadas no chão a tocar silenciosamente nas pernas, a repetir os dedilhados. Há pais lá fora que não sabem bem o que fazer com as mãos. Há um professor que passa de aluno em aluno a dizer sempre a mesma coisa com palavras diferentes: está bem, está bem, está bem.
E há, quase sempre, um aluno que diz, mesmo antes de entrar: acho que não consigo.
Essa frase é a mais interessante de todas. Porque, dez minutos depois, essa mesma pessoa está do outro lado do palco, a bater palmas aos outros, com o sorriso meio idiota de quem acabou de fazer uma coisa que não achava que era capaz de fazer.
É por essa transição que mandamos toda a gente ao palco.
O que o palco faz à aprendizagem
Há uma coisa que acontece dentro de uma sala de aulas e outra coisa que acontece em cima de um palco. Não é a mesma coisa. Pode-se tocar uma peça muito bem na aula, semana após semana, e isso é um tipo de aprendizagem. Mas quem só toca em aula fica a saber meia da história.
O palco pede uma camada diferente. Pede concentração sob pressão. Pede memória que não falha quando o cérebro está a correr mais depressa do que o normal. Pede recuperação quando um dedo cai onde não devia cair. Pede estar presente no momento, não a pensar no que acabou de acontecer nem no que ainda vai acontecer.
Nenhuma destas coisas se aprende em casa a estudar sozinho. Nenhuma destas coisas se aprende nem numa aula. Aprende-se em cima do palco, e só em cima do palco.
É por isso que uma academia que não leva os alunos a palco está, na prática, a ensinar metade do que uma pessoa precisa para ser músico. Pode ensinar muito bem a parte técnica. Mas a parte vital, a que faz a diferença entre "tocar o instrumento" e "ser músico", fica por fazer.
Pela primeira vez: três notas para pais
Primeira: não digas "não fiques nervoso". O nervosismo não desaparece a mando. O que faz é mudar de forma. Se é dito que é mau, torna-se mau. Se é tratado como uma espécie de combustível, torna-se combustível. A frase que ajuda mais é esta: é normal estar nervoso, isso quer dizer que te importas.
Segunda: a avaliação não é sobre a execução. Nenhuma criança de nove anos sabe se tocou "bem" aos ouvidos dos pais. Sabe se foi aplaudida. Sabe se depois foste ter com ela em cheio. Sabe se, à saída, lhe disseste "estou tão orgulhoso de ti". Sabe se celebraram em família. O que a criança retém não é a execução. É a experiência à volta da execução. A memória que vai ficar não é musical. É afectiva.
Terceira: filma, mas não tires os olhos. Vais querer o vídeo. Toda a gente quer. Mas filma com o telemóvel pousado em cima da almofada, não a segurar com a mão. A criança procura a cara dos pais no palco, não o telemóvel. Encontrar os teus olhos no público, mesmo que por um segundo, é a diferença entre tocar sozinho e tocar acompanhado.
Pela primeira vez: três notas para alunos adultos
Se és adulto e vais subir a palco pela primeira vez na vida este dezembro, há coisas que convém saberes.
O primeiro palco é sempre pior na cabeça do que na realidade. Vais estar nervoso. Mais do que achas. Vais chegar ao palco a tremer, vais sentar-te, vais achar que vais morrer, vais começar a tocar e, ao fim de trinta segundos, vai passar. Não há maneira de evitar os primeiros trinta segundos. Toda a gente que já tocou em palco, de qualquer idade, passou por eles. Faz parte. Não é defeito.
Vai correr pior do que em casa. É suposto correr pior. Vai haver uma passagem onde a mão vai trair-te. Vai haver uma nota a mais ou a menos. Vai haver um pedal que escorrega. Nada disto é falha. É palco. O público não vai notar. E se notar, não se importa.
O que faz a diferença não é a execução, é não parar. Se enganares, continua. Se te esqueceres, improvisa. Se tudo se desmontar, levanta-te, respira, começa outra vez. Toda a gente que toca passa por isto. A diferença entre quem continua e quem desiste a meio não está na técnica. Está no treino de continuar.
Depois de o pano fechar
Nos minutos a seguir a um recital, há uma coisa quase universal. As pessoas que acabaram de tocar não se lembram muito bem do que aconteceu. Lembram-se de uma sensação, não de uma sequência. Lembram-se das caras que viram no público, não das notas que tocaram.
Isto parece estranho, mas é saudável. Significa que estiveram presentes. Significa que o corpo e a cabeça estavam no sítio certo. Lembrar-se nitidamente de cada nota tocada seria sinal de estar a observar-se de fora, e isso é o oposto do que o palco pede.
Se és família de alguém que vai subir a um palco pela primeira vez em dezembro, há uma coisa simples que te pedimos: no fim, abraça. Diz "parabéns" e não digas mais nada. Deixa que seja a pessoa a contar-te como foi, quando lhe apetecer, se lhe apetecer, com as palavras que ela quiser. Não analises. Não corrijas. Não compares com o ano passado.
E guarda este dia. Daqui a dez anos, pode ser o dia em que, se perguntares, a pessoa te diz: foi aí que percebi que a música era mesmo para mim.
Em onze anos de academia, já ouvimos esta frase mais vezes do que conseguimos contar.
Gabriela Fernandes
Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.